Para esta semana, eu estava elaborando
uma crônica sobre um bando de imbecis que se intitulam roqueiros e criam
páginas no Facebook usando o nome do Rock em vão. Nas postagens desses,
erroneamente autodenominados, roqueiros se encontra mais hipocrisia e moralismo
que nas pregações de alguns líderes religiosos.
Já estava com o texto quase pronto, quando me lembrei que no próximo
domingo, dia 12, se comemora o Dia das Mães.
Resolvi, então, deixar os roqueiros
moralistas para a próxima semana e, hoje, escrever sobre aquela que nos
carregou, geralmente, por nove meses na barriga, sofreu as dores do parto para
que tivéssemos nosso primeiro contato com as luzes deste mundo, limpou nossas
bundas, nos deu banho, acordou nas madrugadas para nos alimentar, passou
vergonha nas reuniões de pais e mestres, quando as piores notas e o pior
comportamento da escola foram os nossos, e, até hoje, diz que somos
lindos.
Concordo que dia das mães é todo dia,
afinal elas (me refiro ás mães de verdade) estão sempre ao nosso lado, mesmo á
distância, porém acho justo que haja um dia especial para elas e eu tenho
certeza que ninguém homenageia sua mãe todo dia.
E todo ano, as mães esperam um Dia das
Mães diferente dos anteriores, porém, a maioria delas, sempre enfrenta a
monotonia de todos os anos. Monotonia,
que descrevo a seguir através de um pequeno conto, fictício e real, ao mesmo
tempo.
No segundo domingo de Maio, ao invés de
acordar às 11 horas com um lauto café da manhã na cama, preparado pelos filhos,
seu sono é interrompido ás seis e meia pelo maldito despertador e pelas
cutucadas do marido que a avisa que já está na hora dela se levantar. E sabe
para que? Para arrumar a casa e preparar o almoço especial do Dia das Mães,
pois seus filhos casados irão visita-la e os solteiros acordam depois do meio
dia.
Ela se levanta, e o marido continua a
roncar. Após usar o banheiro e lavar o rosto, já pega a vassoura e começa a
varrer a casa. Limpa tudo, exceto os quartos onde os folgados estão a
aproveitar seus milésimos sonos e mais tarde acordar procurando o café da
manhã.
Após a limpeza, começa a preparar o
almoço. Faz tudo com amor e dedicação e, ao mesmo tempo, pensa que esse ano
ganhará presentes que compensem o esforço. Afinal, ela merece abraços e
carinhos, mas quem dispensa um bom presente?
Quando o almoço está quase pronto, o
marido e os filhos solteiros acordam e procuram pelo café. A homenageada do
dia, então, coa o café e arruma a mesa. Após encherem as panças de pão, bolo e
café, se retiram da mesa e nem sequer são capazes de limpá-la ou lavar os
copos. A filha diz que se não estivesse de ressaca, ajudaria a mãe. A mãe
reclama um pouco, mas ao perceber que é em vão, prefere se calar.
Algum tempo depois, chega o filho mais
velho com sua esposa e as duas crianças. Ela os recebe com abraços e sorrisos.
O filho lhe entrega o presente ainda embrulhado, ela agradece e diz que só
abrirá após o almoço. “O que será?”- pergunta a si mesma já desconfiada, mas,
ao mesmo tempo, torcendo que seja algo diferente.
Em seguida chega a filha com seu
marido já meio chapado e os três filhos. Mais abraços e mais UM presente. Ela
agradece e com um sorriso, diz lhes para ficarem á vontade e aguardarem, pois o
almoço já está quase pronto. E eles se sentem tão á vontade, que ligam televisão,
o micro sistem e bagunçam a casa inteira. Crianças correndo dentro e fora da
casa, o volume da tevê tentando disputar com o do micro sistem, que por sua vez
disputa com os gritos da meninada.
Chega o grande momento do dia; a
homenagem que se consiste no almoço preparado pela própria homenageada e a
“abertura” dos presentes. Mas antes tem o discurso do marido, já lotado de
cerveja, citando trechos de músicas do Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo e de
algumas duplas sertanejas. E o presente? Todo ano ele diz a mesma coisa, que
está meio apertado, mas no ano que vem vai dar a sua amada o que ela merece.
Depois de aguentar o bafo e a
declaração de amor do marido, ela ainda tem que ouvir o genro se justificando
que não comprou presente para a sogra porque é contra o consumismo e o
capitalismo (mas na hora que está enchendo a pança de Brahma, Coca Cola e
Chester Perdigão comprado pelos sogros, cadê a fidelidade ideológica?) e a nora
se queixando que não pode trabalhar, pois tem que cuidar das crianças.
É hora de abrir os presentes; o
primeiro a ser aberto foi dado pelo caçula, de doze anos que comprou com o
dinheiro dado pela própria mãe. Ela abre ansiosa e adivinhe o que é? Um prato
que, no máximo, custou três reais. Ela constata, então, que o moleque embolsou
doze reais, pois ela havia lhe dado quinze. Ela ignora, pois não quer estragar
a comemoração.
Em seguida, ela abre o embrulho dado
pela filha baladeira, que para curar a ressaca da noite anterior está bebendo
desde o momento em que acordou. A mãe fica esperançosa, pois pelo tamanho e
pelo lindo papel de presente deve ser alguma coisa boa. Mas, ao abrir se depara
com uma caixa contendo uma... PANELA DE PRESSÂO!
Ela dá um sorriso forçado, agradece
á filha pelo “maravilhoso” presente e já sem esperança abre os outros dois
dados pelos filhos casados. A filha lhe dá uma batedeira e o filho,
aproveitando a promoção da Ricardo Eletro, presenteia a mãe com uma sanduicheira.
Isso é uma sacanagem com as mães.
Todo ano, a maioria delas é presenteada com utensílios para o lar e não com
algo para uso pessoal. Quando eu critico essa atitude, muitos dizem que eu
estou sendo radical e que as mães gostam desses presentes e ficam felizes
quando os ganham.
Não, elas não gostam e só não
reclamam por consideração, para não magoar os filhos imbecis que as veem apenas
como uma serviçal do lar e não como uma mulher, uma mãe, um ser humano que tem
vida além do lar. É claro, que ser
serviçal do lar é exercer uma função nobre, necessária e digna. Porém, o Dias
das Mães é o dia das mães e não das serviçais.
Muitos filhos dão presentes para a
mãe, que serão usados por eles mesmos. O
menino deu um prato e a filha, uma panela de pressão. Eu pergunto: “a mãe irá
guardar esses “belos presentes” no seu guarda roupas?” “Irá usá-los, quando for
á uma festa, á um baile ou á casa de uma amiga?”
E a sanduicheira e a batedeira? Ela
usará quando for ao médico ou para procurar um emprego? Arrumará o cabelo ou se
depilará usando um dos dois?
Temos que saber diferenciar presente
para o lar do presente para a pessoa. Quer dar um presente para o lar, tudo
bem, mas tem outros dias para isso. No próximo domingo, dê um presente para a
sua mãe e não para a casa dela que, talvez, seja a sua casa também. Ou a leve
para ver uma peça de teatro, um filme no cinema (tem que dizer onde, senão é
perigoso alguém comprar quatro Dvd’s piratas por dez reais e dar á mãe), em um
parque, num concerto musical ou num forró. O importante é que ela se sinta bem
de verdade, pelo menos no dia dela. Não venha com esse papo de que a grana está
curta, pois, muitas vezes, um presente para ela sai muito mais barato que um
presente para o lar.
Um bom Dia das Mães e até a próxima
semana.
Marcelo Maia
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